Reabilitação em LER/DORT
05.03.2010
No séc XVIII, Ramazzini descreve a doença dos escribas, quadros clínicos que acometiam os escrivões da época. Na atualidade, quadros semelhantes se encontram entre os diagnósticos inseridos nos DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). Os DORT têm alcançado níveis epidêmicos no Brasil e em vários países do mundo. É importante que se contextualize este fenômeno, para que se possa ter uma compreensão global da questão.
A elevada incidência dos quadros associados aos Dort entre os trabalhadores tem ocorrido dentro de um contexto sócio-econômico específico. Vivemos numa época de intensas mudanças, onde o novo se torna obsoleto rapidamente. Constantemente os trabalhadores têm que se adaptar a novas tecnologias e se atualizar para fazer frente a um mercado cada vez mais restrito e competitivo. O modelo de produção atual se caracteriza pela busca de maior produtividade, onde as empresas têm como meta a redução de seus custos como forma de aumentar seu poder de competitividade dentro de uma economia aberta e globalizada (Tractenberg, 1999). No mundo do trabalho, percebemos a diminuição crescente dos empregos formais e o crescimento do mercado informal de trabalho e do trabalho temporário. Esta mudança na forma de inserção no mercado de trabalho gera insegurança no trabalhador em relação à sua capacidade e recursos para oferecer condições mínimas de subsistência a si e à sua família. O fantasma do desemprego ronda, assombrando os trabalhadores, e a simples atualização de suas competências profissionais não é mais suficiente para que o emprego seja garantido, deixando muitos indivíduos excluídos do mundo do trabalho.
È dentro deste contexto amplo e complexo que surge uma elevada incidência de doenças relacionadas ao trabalho e, entre elas, os DORT. Estes têm se constituído num grande desafio para os profissionais de saúde, que se vêm unindo esforços para compreender suas formas de instalação, seus mecanismos e desenvolver alternativas adequadas de tratamento. A importância de se realizar um trabalho em equipe interdisciplinar tem se tornado cada vez mais evidente. Profissionais de várias áreas de atuação, cada um dentro de sua especialidade, têm buscado unir conhecimentos na tentativa de melhor tratar os pacientes. Na prática, o trabalho em equipe ainda se realiza com dificuldades, buscando-se constantemente aprimorar e desenvolver formas de trabalho conjunto.
Diante de toda a complexidade existente no tratamento e reabilitação dos pacientes/ trabalhadores, é frequente o surgimento de sentimentos de impotência entre os membros das equipes, que se deparam com suas limitações diante das possibilidades de intervenção (Moura, 1999). Em serviços de assistência nos quais a maioria da clientela é portadora de quadros clínicos crônicos, esta dificuldade se potencializa em função da própria cronicidade, exigindo dos profissionais um preparo que transcende o conhecimento de técnicas avançadas. Estes se deparam com a necessidade de rever seus conceitos e forma de atuação, bem como adquirir um desenvolvimento pessoal que possa auxiliá-los a lidar com as angustias e frustrações despertadas na sua atuação profissional.
Para que a equipe possa compreender as dificuldades encontradas no tratamento e reabilitação dos seus pacientes, torna-se importante possuir uma visão global destes, dentro das várias dimensões do Ser. Estas se inter-relacionam e superpõem, dentro de um processo dinâmico e complexo.
Dada a condição de cronicidade, para que seja possível tratar e reabilitar os portadores, são fornecidas inúmeras orientações aos pacientes pela equipe de saúde. Entre estas se encontram elementos relacionados à necessidade de se introduzir modificações na forma como as atividades são realizadas (modificações na postura, atividades e movimentos a serem evitados e/ou modificados, restrições de carga, diminuição do ritmo, etc.), tanto na sua vida pessoal quanto profissional. Estas modificações vão exigir do indivíduo uma disponibilidade para mudança, a realização de várias reformulações e tomada de consciência, dado que muitas mudanças deverão ser incorporadas ao seu dia a dia em caráter permanente. A priori, o indivíduo possui um relativo domínio no que tange a esfera pessoal. No entanto, quando nos referimos à esfera do trabalho, fica evidente que, para seguir essas orientações, existem fatores, além do individual, que podem dificultar a adesão e satisfatória evolução no tratamento e que devem ser considerados.
Minha proposta neste artigo é oferecer uma visão da reabilitação a partir do ponto de vista psicossocial, que possa contribuir com a equipe na abordagem de destes pacientes.
ENTRAVES AO TRATAMENTO E REABILITAÇÃO
Apesar de todas as orientações fornecidas, percebe-se que muitos pacientes não obtêm a melhora esperada em seu quadro clínico. Existem diversos fatores que contribuem para que isto ocorra. Entre eles, a inexistência ou escasso suporte por parte da empresa para a qual o paciente trabalha parece ser relevante, podendo determinar a manutenção dos seus sintomas e até mesmo o agravamento dos mesmos.
São comuns relatos de pacientes que evidenciam esta problemática. Ao possuir condições de retornar ao trabalho e após alta do INSS, é frequente que a empresa imponha dificuldades para a sua readaptação. Estas dizem respeito à não realização de modificações no posto de trabalho, resistência para analisar a Organização do Trabalho e realizar as alterações necessárias visando o alcance de maior salubridade. Muitas empresas possuem modelos rígidos de Organização do Trabalho, possibilitando pouco espaço para diferenças, baixa disponibilidade e flexibilidade para adaptação às modificações necessárias. Este quadro contribui para que o trabalhador não consiga seguir o mínimo das orientações necessárias, o que pode levar a recidivas e/ou agravamento do quadro clínico. Além disto, muitos funcionários recebem pressão para retomar a produção e ritmo anterior ao adoecimento, sofrem discriminação (de colegas e chefias) e são alvo de descrédito em relação às limitações e dor.
Se por um lado questões externas ao indivíduo podem limitar e impedir uma boa evolução de seu quadro clínico, por outro, o próprio trabalhador pode apresentar dificuldades em aceitar as limitações impostas pelo seu adoecimento. Esta não aceitação pode se manifestar na dificuldade em negar pedidos e expor seus limites no local de trabalho. Estas dificuldades também podem encobrir um outro fator: o medo. Medo de perder o emprego, de sofrer retaliações ou discriminação, de ser excluído, humilhado. O medo pode gerar tentativas de escamoteação de seus sintomas e ultrapassagem de limites, na busca de corresponder ao que imagina ser a expectativa dos outros, no caso, colegas e chefias.
Diante deste complexo quadro, que representa apenas uma possibilidade de recorte da realidade, não pode existir reabilitação bem como fica comprometida a recuperação do trabalhador, pois as condições existentes são desfavoráveis às adaptações necessárias.
O quadro acima se refere aos portadores de DORT que retornam ao trabalho. Voltemos nossa atenção agora para os trabalhadores que foram afastados do local de trabalho com dor e limitações importantes, mas que não conseguem obter uma melhora dos sintomas que possibilite o retorno ao trabalho. O que acontece aqui?
Talvez possamos esboçar algumas possibilidades de compreensão desta situação. Podemos partir da própria caracterização do humano. O ser humano é dotado de subjetividade, atribuindo significado às suas vivências. Nós construímos em nosso psiquismo imagens e representações mentais das pessoas, locais, instituições e de tudo o que existe à nossa volta. Estas imagens são formadas a partir da percepção (objetiva e subjetiva) que se tem do objeto e influenciam os padrões de relação que se estabelece com o mesmo. Dentro disto, o trabalhador também cria uma imagem da empresa para a qual trabalha, carregada de representações, carga afetiva e significado.
Esta imagem terá um peso considerável na forma como irá encarar seu adoecimento e lidar com o processo de reabilitação. A empresa pode ser percebida como uma organização que se importa pouco com seus trabalhadores, e/ou que exige e cobra demais e não reconhece devidamente seu pessoal, e/ou que não assume sua parte de responsabilidade no adoecimento de seus membros, e/ou que possui uma política de demissão das pessoas que possuem restrições para o trabalho (ao invés de buscar formas de readaptação) ou pode possuir outras representações negativas, além destas. A partir da imagem/representação construída da empresa, associada às vivências do indivíduo no local de trabalho, se estabelecerá uma forma específica de relação com a mesma empresa.
Brad Grunert (Ranney, 2000) coloca que alguns trabalhadores podem atribuir seu adoecimento unicamente ao excesso de produção e às condições adversas do local de trabalho. Nesta circunstância, a única responsabilidade para reparar a situação é atribuída ao empregador. Quase sempre existe, neste sentido, um intercâmbio bastante hostil entre empregado e empregador. Este autor coloca ainda que frequentemente, nos casos de Dort, o empregador considera como um exagero os sintomas do empregado, pela ausência de sinais visíveis de lesão.
O trabalhador que possui uma imagem negativa da empresa pode depositar nesta toda a responsabilidade pelo seu adoecimento e, portanto, pela sua cura, desejando que a empresa a reconheça e a assuma. Quando isto ocorre, o grau de comprometimento que o indivíduo passa a ter com a sua recuperação pode ser quase nulo, pois não possui a percepção da sua participação e responsabilidade sobre a própria saúde. Este quadro pode gerar uma baixa colaboração e envolvimento com o próprio tratamento. Além disto, este quadro global desperta, com freqüência, sentimentos de raiva, revolta e abandono. Associados ao medo de retornar ao trabalho numa condição de limitação, geram um estado de tensão que pode, entre outros, influenciar na percepção da dor e das limitações.
Ao contrário do que alguns acreditam, o afastamento do trabalho geralmente desperta uma série de conflitos, insegurança e tensão no trabalhador, podendo surgir dúvidas em relação à possibilidade de melhora dos seus sintomas e medo da incapacidade. É comum que haja um abalo na auto-estima. Em seus depoimentos, os trabalhadores afirmam sentir-se inúteis, abandonados, desvalorizados, com grande mágoa em relação à empresa e desmotivados para retornar para a mesma. No entanto, diante das limitações impostas pela doença (principalmente nos casos crônicos) e do atual contexto sócio-econômico, não conseguem vislumbrar qualquer perspectiva de futuro, ficando muitas vezes estagnados nesta situação e vivenciando uma sensação de paralisia da própria vida.
Neste quadro, os superiores imediatos possuem papel importante, pois representam as políticas e ideologias da empresa. Superiores que são rígidos, autoritários, que pressionam e discriminam seus funcionários, gerando um clima de tensão acentuado, contribuem para uma maior resistência do trabalhador para retornar ao trabalho, bem como para as já citadas dificuldades no seu processo de readaptação. Estes trabalhadores, conhecendo as dificuldades que terão que enfrentar, sentem-se impotentes para lidar com a situação, não conseguindo reagir.
Quando o funcionário possui respaldo por parte da empresa, percebendo mobilização desta na direção de sanar os problemas que se encontram na etiologia dos seus sintomas e criar condições favoráveis à sua recepção e readaptação, as chances de sentir-se mais seguro e motivado são maiores. O retorno ao trabalho e a recuperação do indivíduo ficam, desta forma, facilitados, pois as condições psicossociais e organizacionais são favoráveis. O trabalhador sente que a empresa assume sua parte de responsabilidade no seu adoecimento e tratamento, o que facilita para que também assuma a sua, conseguindo mobilizar recursos internos para se recuperar e readaptar.
CONCLUSÃO
Para que se obtenha uma compreensão ampla das dificuldades encontradas no tratamento e reabilitação do paciente, não se podem negligenciar os aspectos da esfera psicossocial. Pelo contrário, devem ser incluídos e integrados, mesmo que as possibilidades de intervenção direta sejam restritas e limitadas. A reabilitação do indivíduo portador de DORT envolve uma série de aspectos subjetivos e latentes que devem ser considerados para a conquista de melhores resultados. Neste sentido, é importante que haja comprometimento com a saúde e com a vida, tanto por parte do trabalhador quanto da empresa.
As alterações no posto e nas atividades de trabalho são importantes, desde que se associe a isto a promoção de um ambiente psicossocial favorável à recepção do trabalhador e à sua readaptação. Além disto, é importante que o paciente receba auxílio psicológico durante seu tratamento para que possa ampliar sua consciência em relação à sua postura e conflitos na situação presente, descobrir alternativas para sua vida e comprometer-se com seu processo de reabilitação, tornando-se sujeito de suas ações.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1. Bonger, P.M., DE Winter, C.R. et al. Psichosocial factors at work and musculoskeletal disease, Scandinavian Journal of Work, Environment and Health, 1993, 19, 297-312.
2. Bonzani, Paul J.; OTR; CHT; Durham; NC; Millender, Lewis et al. Factors prolonging disability in work-related cumulative trauma disorders. J Hand Surg. 22A:30-34, 1997.
3. Codo, Wanderley; Sampaio, José Coelho (org.) Sofrimento psíquico nas organizações. Petrópolis: Vozes, 1995..
4. Dittrich, A. Psicologia Organizacional e Globalização: os desafios da reestruturação produtiva. Psicologia, Ciência e Profissão, 1999, 19 (1), 50-65.
5. Forlenza, O. Aspectos psiquiátricos da dor. J. Bras. Psiquiat. 43: 141-148, 1994
6. Grunert, Brad.. Avaliação psicológica dos Distúrbios crônicos do membro superior in Ranney, Don. Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. São Paulo, Roca, 2000
7. Kilimnik, Zélia Miranda. Trabalhar em tempos de fim dos empregos. Psicologia Ciência e profissão, 18 (2), 34-45, 1998.
8. Moon, S. D, Sauter, S. L.. Psychosocial Aspects of musculoskeletal disorders in office work. London: Taylor& Francis, 1996.
9. Moura, R.J. Psicologia e Trabalho, São Paulo, 1999, apostila do Simpósio LER/DORT - Preparando os Caminhos para a Cura
10. Smith, M.J., Carayon, P. et al . Empoyee stress and health complaints in jobs with and without electronic prformance monitorin., Applied Ergonomics, 1992, 23, 17-27. 11. Tractenberg, Leonel. A Complexidade das Organizações: Futuros desafios para o psicólogo frente à reestruturação competitiva. Psicologia, Ciência e Profissão, 1999, 19 (1), 14-29.
REABILITAÇÃO DE PORTADORES DE LER/DORT: UMA COMPREENSÃO A PARTIR DA DIMENSÃO PSICOSSOCIAL
Autor: Rosalina J. Moura
INTRODUÇÃO
Há milênios o homem tem que trabalhar como forma de garantir sua sobrevivência e da sua espécie. O trabalho possibilita ao homem o desenvolvimento de suas potencialidades e o exercício da criatividade, podendo ser fonte de desenvolvimento, de satisfação e de prazer. Por outro lado, também pode ser vivenciado como algo penoso e árduo, e ser fonte de desprazer e sofrimento. Desta forma, no lugar de contribuir para o desenvolvimento e crescimento humano, pode adoecer o Homem e contribuir para a sua degeneração psíquica, física, espiritual e moral.
Há milênios o homem tem que trabalhar como forma de garantir sua sobrevivência e da sua espécie. O trabalho possibilita ao homem o desenvolvimento de suas potencialidades e o exercício da criatividade, podendo ser fonte de desenvolvimento, de satisfação e de prazer. Por outro lado, também pode ser vivenciado como algo penoso e árduo, e ser fonte de desprazer e sofrimento. Desta forma, no lugar de contribuir para o desenvolvimento e crescimento humano, pode adoecer o Homem e contribuir para a sua degeneração psíquica, física, espiritual e moral.
No séc XVIII, Ramazzini descreve a doença dos escribas, quadros clínicos que acometiam os escrivões da época. Na atualidade, quadros semelhantes se encontram entre os diagnósticos inseridos nos DORT (Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). Os DORT têm alcançado níveis epidêmicos no Brasil e em vários países do mundo. É importante que se contextualize este fenômeno, para que se possa ter uma compreensão global da questão.
A elevada incidência dos quadros associados aos Dort entre os trabalhadores tem ocorrido dentro de um contexto sócio-econômico específico. Vivemos numa época de intensas mudanças, onde o novo se torna obsoleto rapidamente. Constantemente os trabalhadores têm que se adaptar a novas tecnologias e se atualizar para fazer frente a um mercado cada vez mais restrito e competitivo. O modelo de produção atual se caracteriza pela busca de maior produtividade, onde as empresas têm como meta a redução de seus custos como forma de aumentar seu poder de competitividade dentro de uma economia aberta e globalizada (Tractenberg, 1999). No mundo do trabalho, percebemos a diminuição crescente dos empregos formais e o crescimento do mercado informal de trabalho e do trabalho temporário. Esta mudança na forma de inserção no mercado de trabalho gera insegurança no trabalhador em relação à sua capacidade e recursos para oferecer condições mínimas de subsistência a si e à sua família. O fantasma do desemprego ronda, assombrando os trabalhadores, e a simples atualização de suas competências profissionais não é mais suficiente para que o emprego seja garantido, deixando muitos indivíduos excluídos do mundo do trabalho.
È dentro deste contexto amplo e complexo que surge uma elevada incidência de doenças relacionadas ao trabalho e, entre elas, os DORT. Estes têm se constituído num grande desafio para os profissionais de saúde, que se vêm unindo esforços para compreender suas formas de instalação, seus mecanismos e desenvolver alternativas adequadas de tratamento. A importância de se realizar um trabalho em equipe interdisciplinar tem se tornado cada vez mais evidente. Profissionais de várias áreas de atuação, cada um dentro de sua especialidade, têm buscado unir conhecimentos na tentativa de melhor tratar os pacientes. Na prática, o trabalho em equipe ainda se realiza com dificuldades, buscando-se constantemente aprimorar e desenvolver formas de trabalho conjunto.
Diante de toda a complexidade existente no tratamento e reabilitação dos pacientes/ trabalhadores, é frequente o surgimento de sentimentos de impotência entre os membros das equipes, que se deparam com suas limitações diante das possibilidades de intervenção (Moura, 1999). Em serviços de assistência nos quais a maioria da clientela é portadora de quadros clínicos crônicos, esta dificuldade se potencializa em função da própria cronicidade, exigindo dos profissionais um preparo que transcende o conhecimento de técnicas avançadas. Estes se deparam com a necessidade de rever seus conceitos e forma de atuação, bem como adquirir um desenvolvimento pessoal que possa auxiliá-los a lidar com as angustias e frustrações despertadas na sua atuação profissional.
Para que a equipe possa compreender as dificuldades encontradas no tratamento e reabilitação dos seus pacientes, torna-se importante possuir uma visão global destes, dentro das várias dimensões do Ser. Estas se inter-relacionam e superpõem, dentro de um processo dinâmico e complexo.
Dada a condição de cronicidade, para que seja possível tratar e reabilitar os portadores, são fornecidas inúmeras orientações aos pacientes pela equipe de saúde. Entre estas se encontram elementos relacionados à necessidade de se introduzir modificações na forma como as atividades são realizadas (modificações na postura, atividades e movimentos a serem evitados e/ou modificados, restrições de carga, diminuição do ritmo, etc.), tanto na sua vida pessoal quanto profissional. Estas modificações vão exigir do indivíduo uma disponibilidade para mudança, a realização de várias reformulações e tomada de consciência, dado que muitas mudanças deverão ser incorporadas ao seu dia a dia em caráter permanente. A priori, o indivíduo possui um relativo domínio no que tange a esfera pessoal. No entanto, quando nos referimos à esfera do trabalho, fica evidente que, para seguir essas orientações, existem fatores, além do individual, que podem dificultar a adesão e satisfatória evolução no tratamento e que devem ser considerados.
Minha proposta neste artigo é oferecer uma visão da reabilitação a partir do ponto de vista psicossocial, que possa contribuir com a equipe na abordagem de destes pacientes.
ENTRAVES AO TRATAMENTO E REABILITAÇÃO
Apesar de todas as orientações fornecidas, percebe-se que muitos pacientes não obtêm a melhora esperada em seu quadro clínico. Existem diversos fatores que contribuem para que isto ocorra. Entre eles, a inexistência ou escasso suporte por parte da empresa para a qual o paciente trabalha parece ser relevante, podendo determinar a manutenção dos seus sintomas e até mesmo o agravamento dos mesmos.
São comuns relatos de pacientes que evidenciam esta problemática. Ao possuir condições de retornar ao trabalho e após alta do INSS, é frequente que a empresa imponha dificuldades para a sua readaptação. Estas dizem respeito à não realização de modificações no posto de trabalho, resistência para analisar a Organização do Trabalho e realizar as alterações necessárias visando o alcance de maior salubridade. Muitas empresas possuem modelos rígidos de Organização do Trabalho, possibilitando pouco espaço para diferenças, baixa disponibilidade e flexibilidade para adaptação às modificações necessárias. Este quadro contribui para que o trabalhador não consiga seguir o mínimo das orientações necessárias, o que pode levar a recidivas e/ou agravamento do quadro clínico. Além disto, muitos funcionários recebem pressão para retomar a produção e ritmo anterior ao adoecimento, sofrem discriminação (de colegas e chefias) e são alvo de descrédito em relação às limitações e dor.
Se por um lado questões externas ao indivíduo podem limitar e impedir uma boa evolução de seu quadro clínico, por outro, o próprio trabalhador pode apresentar dificuldades em aceitar as limitações impostas pelo seu adoecimento. Esta não aceitação pode se manifestar na dificuldade em negar pedidos e expor seus limites no local de trabalho. Estas dificuldades também podem encobrir um outro fator: o medo. Medo de perder o emprego, de sofrer retaliações ou discriminação, de ser excluído, humilhado. O medo pode gerar tentativas de escamoteação de seus sintomas e ultrapassagem de limites, na busca de corresponder ao que imagina ser a expectativa dos outros, no caso, colegas e chefias.
Diante deste complexo quadro, que representa apenas uma possibilidade de recorte da realidade, não pode existir reabilitação bem como fica comprometida a recuperação do trabalhador, pois as condições existentes são desfavoráveis às adaptações necessárias.
O quadro acima se refere aos portadores de DORT que retornam ao trabalho. Voltemos nossa atenção agora para os trabalhadores que foram afastados do local de trabalho com dor e limitações importantes, mas que não conseguem obter uma melhora dos sintomas que possibilite o retorno ao trabalho. O que acontece aqui?
Talvez possamos esboçar algumas possibilidades de compreensão desta situação. Podemos partir da própria caracterização do humano. O ser humano é dotado de subjetividade, atribuindo significado às suas vivências. Nós construímos em nosso psiquismo imagens e representações mentais das pessoas, locais, instituições e de tudo o que existe à nossa volta. Estas imagens são formadas a partir da percepção (objetiva e subjetiva) que se tem do objeto e influenciam os padrões de relação que se estabelece com o mesmo. Dentro disto, o trabalhador também cria uma imagem da empresa para a qual trabalha, carregada de representações, carga afetiva e significado.
Esta imagem terá um peso considerável na forma como irá encarar seu adoecimento e lidar com o processo de reabilitação. A empresa pode ser percebida como uma organização que se importa pouco com seus trabalhadores, e/ou que exige e cobra demais e não reconhece devidamente seu pessoal, e/ou que não assume sua parte de responsabilidade no adoecimento de seus membros, e/ou que possui uma política de demissão das pessoas que possuem restrições para o trabalho (ao invés de buscar formas de readaptação) ou pode possuir outras representações negativas, além destas. A partir da imagem/representação construída da empresa, associada às vivências do indivíduo no local de trabalho, se estabelecerá uma forma específica de relação com a mesma empresa.
Brad Grunert (Ranney, 2000) coloca que alguns trabalhadores podem atribuir seu adoecimento unicamente ao excesso de produção e às condições adversas do local de trabalho. Nesta circunstância, a única responsabilidade para reparar a situação é atribuída ao empregador. Quase sempre existe, neste sentido, um intercâmbio bastante hostil entre empregado e empregador. Este autor coloca ainda que frequentemente, nos casos de Dort, o empregador considera como um exagero os sintomas do empregado, pela ausência de sinais visíveis de lesão.
O trabalhador que possui uma imagem negativa da empresa pode depositar nesta toda a responsabilidade pelo seu adoecimento e, portanto, pela sua cura, desejando que a empresa a reconheça e a assuma. Quando isto ocorre, o grau de comprometimento que o indivíduo passa a ter com a sua recuperação pode ser quase nulo, pois não possui a percepção da sua participação e responsabilidade sobre a própria saúde. Este quadro pode gerar uma baixa colaboração e envolvimento com o próprio tratamento. Além disto, este quadro global desperta, com freqüência, sentimentos de raiva, revolta e abandono. Associados ao medo de retornar ao trabalho numa condição de limitação, geram um estado de tensão que pode, entre outros, influenciar na percepção da dor e das limitações.
Ao contrário do que alguns acreditam, o afastamento do trabalho geralmente desperta uma série de conflitos, insegurança e tensão no trabalhador, podendo surgir dúvidas em relação à possibilidade de melhora dos seus sintomas e medo da incapacidade. É comum que haja um abalo na auto-estima. Em seus depoimentos, os trabalhadores afirmam sentir-se inúteis, abandonados, desvalorizados, com grande mágoa em relação à empresa e desmotivados para retornar para a mesma. No entanto, diante das limitações impostas pela doença (principalmente nos casos crônicos) e do atual contexto sócio-econômico, não conseguem vislumbrar qualquer perspectiva de futuro, ficando muitas vezes estagnados nesta situação e vivenciando uma sensação de paralisia da própria vida.
Neste quadro, os superiores imediatos possuem papel importante, pois representam as políticas e ideologias da empresa. Superiores que são rígidos, autoritários, que pressionam e discriminam seus funcionários, gerando um clima de tensão acentuado, contribuem para uma maior resistência do trabalhador para retornar ao trabalho, bem como para as já citadas dificuldades no seu processo de readaptação. Estes trabalhadores, conhecendo as dificuldades que terão que enfrentar, sentem-se impotentes para lidar com a situação, não conseguindo reagir.
Quando o funcionário possui respaldo por parte da empresa, percebendo mobilização desta na direção de sanar os problemas que se encontram na etiologia dos seus sintomas e criar condições favoráveis à sua recepção e readaptação, as chances de sentir-se mais seguro e motivado são maiores. O retorno ao trabalho e a recuperação do indivíduo ficam, desta forma, facilitados, pois as condições psicossociais e organizacionais são favoráveis. O trabalhador sente que a empresa assume sua parte de responsabilidade no seu adoecimento e tratamento, o que facilita para que também assuma a sua, conseguindo mobilizar recursos internos para se recuperar e readaptar.
CONCLUSÃO
Para que se obtenha uma compreensão ampla das dificuldades encontradas no tratamento e reabilitação do paciente, não se podem negligenciar os aspectos da esfera psicossocial. Pelo contrário, devem ser incluídos e integrados, mesmo que as possibilidades de intervenção direta sejam restritas e limitadas. A reabilitação do indivíduo portador de DORT envolve uma série de aspectos subjetivos e latentes que devem ser considerados para a conquista de melhores resultados. Neste sentido, é importante que haja comprometimento com a saúde e com a vida, tanto por parte do trabalhador quanto da empresa.
As alterações no posto e nas atividades de trabalho são importantes, desde que se associe a isto a promoção de um ambiente psicossocial favorável à recepção do trabalhador e à sua readaptação. Além disto, é importante que o paciente receba auxílio psicológico durante seu tratamento para que possa ampliar sua consciência em relação à sua postura e conflitos na situação presente, descobrir alternativas para sua vida e comprometer-se com seu processo de reabilitação, tornando-se sujeito de suas ações.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1. Bonger, P.M., DE Winter, C.R. et al. Psichosocial factors at work and musculoskeletal disease, Scandinavian Journal of Work, Environment and Health, 1993, 19, 297-312.
2. Bonzani, Paul J.; OTR; CHT; Durham; NC; Millender, Lewis et al. Factors prolonging disability in work-related cumulative trauma disorders. J Hand Surg. 22A:30-34, 1997.
3. Codo, Wanderley; Sampaio, José Coelho (org.) Sofrimento psíquico nas organizações. Petrópolis: Vozes, 1995..
4. Dittrich, A. Psicologia Organizacional e Globalização: os desafios da reestruturação produtiva. Psicologia, Ciência e Profissão, 1999, 19 (1), 50-65.
5. Forlenza, O. Aspectos psiquiátricos da dor. J. Bras. Psiquiat. 43: 141-148, 1994
6. Grunert, Brad.. Avaliação psicológica dos Distúrbios crônicos do membro superior in Ranney, Don. Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho. São Paulo, Roca, 2000
7. Kilimnik, Zélia Miranda. Trabalhar em tempos de fim dos empregos. Psicologia Ciência e profissão, 18 (2), 34-45, 1998.
8. Moon, S. D, Sauter, S. L.. Psychosocial Aspects of musculoskeletal disorders in office work. London: Taylor& Francis, 1996.
9. Moura, R.J. Psicologia e Trabalho, São Paulo, 1999, apostila do Simpósio LER/DORT - Preparando os Caminhos para a Cura
10. Smith, M.J., Carayon, P. et al . Empoyee stress and health complaints in jobs with and without electronic prformance monitorin., Applied Ergonomics, 1992, 23, 17-27. 11. Tractenberg, Leonel. A Complexidade das Organizações: Futuros desafios para o psicólogo frente à reestruturação competitiva. Psicologia, Ciência e Profissão, 1999, 19 (1), 14-29.

