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O inimigo oculto da produtividade

27.10.2010

Autor: Alberto José Niituma Ogata*

 As doenças crônicas têm um impacto significativo na produtividade e aumentam os custos de assistência médica. Antigamente se acreditava que a perda na produtividade estava associada somente às faltas ao trabalho. Sabemos atualmente que isso também acontece quando se comparece ao trabalho com algum problema de saúde. Todos já sentiram pessoalmente as dificuldades de se manter o ritmo normal de trabalho quando se está com algum problema de saúde, como enxaqueca, crise alérgica, cólicas menstruais, depressão ou dores abdominais.

Podemos aceitar basicamente dois conceitos de presenteísmo. A primeira, que envolve uma visão em saúde ocupacional, utilizada particularmente na Europa, que reflete a propensão do trabalhador em permanecer trabalhando, mesmo doente, havendo uma relação com a organização e as condições de trabalho. A segunda, mais utilizada nos Estados Unidos, é resumida por Larry Chapman como "a extensão (mensurável) em que os sintomas, condições e doenças afetam negativamente a produtividade no trabalho de pessoas que decidem permanecer no trabalho". Deste modo, esta visão tem caráter individual, e visa abordar cada situação visando a melhoria da produtividade. Na nossa ótica, devemos analisar as condições de saúde relacionadas ao presenteísmo, mas não devemos deixar de avaliar as questões básicas relacionadas à estrutura, à organização do trabalho e as relações interpessoais.

Um estudo coordenado por Ron Goetzel e publicado em 2004 demonstrou que as dez condições mais relacionadas (como hipertensão arterial, doença do coração, depressão, problemas articulares e alergias) com o presenteísmo geram mais custos em assistência médica quando comparados com os custos diretos com saúde. Calcula-se que o custo relacionado com presenteísmo chegue a 150 bilhões de dólares, nos Estados Unidos, por ano.

Em 2004, foi realizado uma pesquisa envolvendo mais de 16.000 funcionários de uma grande instituição bancária americana (Bank One). Constatou-se que um quarto dos empregados relatou ter apresentados limitações no trabalho provocadas por problemas de saúde e quase metade tiveram pelo menos uma condição que exigiu procurar o médico ou tomar uma medicação. Os problemas que mais trouxeram limitação para o trabalho foram depressão, diabete, problemas intestinais, dores nas costas e artrites.

Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, na empresa "Dow Chemical" e publicada em 2005, mostrou que condições como alergias, dores articulares, problemas lombares e posturais foram responsáveis por redução na capacidade de trabalhar de até 36%. Os autores deste estudo estimaram que os problemas crônicos de saúde são responsáveis por 10% dos custos com mão-de-obra, sendo que quase 7% podendo ser atribuído ao presenteísmo.

Recentemente, a mais prestigiosa revista médica inglesa (British Medical Journal) publicou um estudo analisando licenças médicas de curta duração, condição de saúde e risco de doenças cardiovasculares entre mais de 10.000 trabalhadores da área pública. Os autores encontraram risco duas vezes maior de doenças coronarianas sérias entre profissionais com baixa condição de saúde e sem faltas ao trabalho quando comparados com profissionais que apresentavam quantidades moderadas de licenças médicas. Concluem que as pessoas que trabalhavam, mesmo doentes, apresentaram mais risco de doenças cardiovasculares. Atribuem esta constatação para alguns fatores, como (1) trabalhar, mesmo doente, pode agravar o dano psicológico com conseqüências físicas e hormonais (2) pode haver agravamento do stress que agem em doenças ainda que não se manifestaram ou estejam em estado inicial (3) este comportamento pode estar associado a uma postura pessoal em que os sintomas e as questões relacionadas ao estilo de vida são ignorados e não se busca apoio ou ajuda. Este importante estudo, permite uma reflexão sobre a questão do controle excessivo sobre licenças médicas, principalmente as de curta duração, que podem gerar o fenômeno do presenteísmo.

As empresas estão cada vez mais envolvidas com programas de gestão em saúde e qualidade de vida, buscando principalmente contar com colaboradores mais saudáveis e produtivos. Cada vez mais os gestores estão conscientes de que a saúde e o bem estar dos empregados está relacionada com a produtividade corporativa. A questão que se coloca é se as empresas estão preparadas ou não para esta ação.

Os programas típicos em empresa estão voltados para atividades educativas em saúde e rastreamento de doenças. Recentemente, tem se buscado parcerias com as empresas de planos de saúde e corretoras visando oferecer tratamentos e ações para os empregados.

Os programas realizados em empresas devem, para se atingir o resultado pretendido(redução nos custos com assistência médica, controle do absenteísmo ou do presenteísmo, aumento da produtividade, melhoria do clima organizacional) ser elaborados com base em premissas básicas, seguindo os seguintes estágios (1) avaliação de necessidades (2) planejamento (3) implantação participativa(4) consolidação/manutenção (5) feedback dos resultados.

Os benefícios destas ações estão amplamente comprovados. E, cada vez mais, o sucesso das empresas está relacionado a um conjunto de profissionais criativos, motivados e saudáveis. O desafio é construir programas com elevada participação, que propiciem modificações de comportamentos não saudáveis e que se consolidem no tempo.

*ALBERTO OGATA é médico com mestrado em Economia da Saúde pela USP, Diretor da Subsecretaria de Assistência Médico Social Tribunal Regional Federal da 3ª Região e Presidente da ABQV.

Fonte original: WWW.abqv.com.br

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