Como lidar com o desafio da mudança de comportamento?
Autor: Rodrigo Siqueira Reis*
Nos últimos anos tem aumentado o interesse da comunidade sobre a relação entre a saúde e o bem estar no trabalho. Este interesse é evidenciado pela grande atenção que a mídia em geral, tanto os periódicos científicos como outros de interesse da população, tem dado ao tema (DANNA; GRIFFIN, 1999).
As experiências vividas no trabalho, de natureza física, emocional, mental ou social, afetam as pessoas enquanto estas se encontram nos locais que tais tarefas são executadas (DANNA; GRIFFIN, 1999). Entretanto, estas experiências são extrapoladas para os outros domínios da existência humana, como a família e o lazer. Para Conrad (1998), os trabalhadores passam ao menos 1/3 das horas em que estão acordados no trabalho e não deixam necessariamente as tarefas para trás quando saem destes locais. Na verdade, a vida pessoal e a vida no trabalho não são entidades separadas, ao contrário, são domínios inter-relacionados que tem efeitos recíprocos (CAUDROM, 1997).
Diversos elementos presentes nestes locais aumentam os riscos a que os trabalhadores estão expostos, como as práticas de segurança e saúde nas organizações (PATTERSON, 1997) e os aspectos ergonômicos (HOKE, 1997). Outras ameaças potenciais são as agressões (NEUMAN; BARON, 1997), o assédio sexual (MARTELL; SULLIVAN; 1994) e a natureza da relação entre chefes e subordinados (HORNSTEIN, 1996). Estes elementos, em combinação com as demandas inerentes as atividades laborais, podem representar uma séria ameaça à saúde e bem-estar do trabalhador.
Na verdade, os aspectos relativos à saúde e o bem-estar no trabalho podem ter conseqüências tanto para o trabalhador quanto para a empresa (DANNA; GRIFFIN, 1999). Por exemplo, trabalhadores que apresentam condições de saúde e bem estar reduzidas podem ser menos produtivos, realizar decisões de menor qualidade e apresentar maior probabilidade de faltarem a estes locais (BOYD, 1997).
A partir da segunda metade da década passada diversas evidências têm sido apontadas sobre os benefícios que iniciativas voltadas para a promoção da saúde apresentam para empresas e trabalhadores. Por exemplo, em um estudo de revisão, Blair (1995) destacou que programas de saúde podem aprimorar o estilo de vida dos participantes e como conseqüência, diminuir os riscos para o desenvolvimento de diversas doenças crônico-degenerativas. Outros estudos têm relatado benefícios diversos como a redução dos custos nos cuidados com saúde (WHITMER, 1995), diminuição na incidência e severidade das desordens de traumas cumulativos no trabalho (CHENOWETH, 1995), no absenteísmo (BAUN, 1995) e ainda no aumento da produtividade (SHEPARD, 1995).
Apesar destes argumentos e também do maior interesse demonstrado pela mídia em geral, ainda se observa certa dificuldade para implementar programas voltados para a promoção da saúde no trabalho, tanto pela relutância por parte de empregadores, quanto pela baixa aderência dos empregados (SHEPARD, 2002).
Em parte, esta dificuldade é provocada pela carência de modelos que permitam discutir apropriadamente a interação entre os fatores que afetam a saúde e o bem-estar no trabalho. Neste sentido, Danna; Griffin (1999) desenvolveram, a partir dos trabalhos de COOPER; MARSHAL (1978) e MAKADOK (1995), um modelo para discutir esta interação (Figura 3)

Figura 3: Modelo para Organização e Direcionamento de Teorias, Pesquisas e Práticas Relacionadas à Saúde e Bem-Estar no Local de Trabalho [1]
Neste modelo, o conceito de bem-estar é mais amplo e abrangente do que o conceito de saúde. O bem-estar compreende as satisfações que o indivíduo possui com os diversos aspectos da vida dentro e fora do trabalho. A saúde, por sua vez, é aceita como um sub-componente do bem-estar e é compreendida por indicadores psicológicos e fisiológicos (DANNA; GRIFFIN, 1999).
Ainda de acordo com Danna e Griffin (1999), dois conjuntos de conseqüências à saúde e o bem-estar no trabalho podem ser identificados, os individuais e os organizacionais. As conseqüências individuais têm implicação direta com aspectos fisiológicos, psicológicos e comportamentais, enquanto as organizacionais estão relacionadas com absenteísmo, custos com seguro-saúde e produtividade, que são aspectos que afetam mais diretamente as organizações.
Finalmente, destaca-se o papel das intervenções, ao se reconhecer o seu potencial de impacto nos fatores antecessores, na saúde e bem-estar atuais e também nas conseqüências (DANNA; GRIFFIN, 1999).
Modelos de estudo e intervenção podem facilitar a compreensão por parte das comunidades científica, empresarial e trabalhadora, a respeito da complexa interação dos fatores que compõem a saúde no trabalho. No entanto, para esta compreensão é importante destacar a mudança de foco que tem se observado no âmbito da saúde ocupacional.
Esta área, que outrora enfatizava os riscos inerentes às atividades próprias do trabalho, atualmente valoriza a influência que os fatores não-relacionados diretamente ao trabalho têm na saúde dos indivíduos e das empresas.
Para Green e Kreuter (1991), quatro fenômenos têm influenciado o crescimento da promoção da saúde no trabalho:
a) A mudança no perfil demográfico na maioria dos locais de trabalho, especialmente o envelhecimento da força de trabalho e a maior participação da mulher no mercado;
b) O contexto econômico, com o elevado crescimento nos custos associados aos trabalhadores não-saudáveis, o que torna as indústrias menos competitivas;
c) O crescente reconhecimento da influência dos determinantes ambientais e comportamentais da saúde no absenteísmo e da produtividade;
d) A evidência cada vez maior de que estratégias de educação e promoção da saúde têm sido efetivas em alterar os determinantes ambientais e comportamentais da saúde.
De acordo com Fieldin (1984), muitos programas de intervenção têm como foco a modificação dos precursores comportamentais das doenças, que nem sempre são especificamente relacionados às tarefas do trabalho, tais como: dieta, exercício, pressão arterial e uso de tabaco. Tais precursores são também denominados Comportamentos de Risco à Saúde ou CRS (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). De fato, em anos recentes diversas intervenções têm sido conduzidas em locais de trabalho visando a modificação de CRS variados como tabagismo e ingestão de álcool (ROSAL et al. 2001), nutrição e atividade física (KRAMISH et al. 2002), controle da pressão arterial e colesterol (MUTTO et al. 2001). De um modo geral, estes programas de intervenção buscam atuar sobre os fatores que podem influenciar a adoção ou o abandono dos CRS. Estes fatores são denominados “determinantes dos CRS” de acordo com a WORLD HEALTH ORGANIZATION (1998, p. 6).
Em verdade, o estudo dos fatores determinantes teve origem no anseio de pesquisadores e profissionais de, ao compreender a complexidade destes fatores, desenvolver intervenções para promoção da saúde de maneira mais efetiva. Esta preocupação suscitou a aplicação e o desenvolvimento de teorias e modelos que se caracterizam por concentrar o seu foco de análise nos níveis: a) individuais; b) interpessoais ou c) comunitários (GLANZ et al. 1996). Como conseqüência, conceitos próprios de cada teoria são estabelecidos, como pode ser observado no Quadro 1.

Entre os diversos modelos teóricos, o Modelo de Transteórico e a Teoria Cognitiva Social têm sido aqueles empregados com mais sucesso para a elaboração de estratégias de intervenção para modificação de CRS.
Nestes modelos teóricos, construtos como auto-eficácia, intenção de mudança, suporte social, crença em resultados obtidos, entre outros, têm sido considerados fundamentais tanto para compreender os CRS como para aprimorar o sucesso das intervenções com foco na modificação destes comportamentos (GLANZ et al. 1996).
Apesar deste reconhecimento, diversos pesquisadores têm alertado para a necessidade do desenvolvimento de mais pesquisas teoria-orientadas para a promoção da saúde no trabalho (CRUMP et al. 1996; WILSON et al. 1996; HEANY; GOETZ, 1997; DISHMAN et al. 1998; SORENSEN et al. 1998).
Este chamado deve-se, em parte, à complexidade e diversidade dos FATORES DETERMINATES DOS CRS, o que leva a uma menor capacidade de sucesso nas intervenções fundamentadas em uma única teoria ou modelo. Como afirmam Glanz et al. (1996) “os profissionais da promoção da saúde consideram que um grande desafio é aprender a adequar uma teoria ou modelo à população e local em que trabalham e devido à complexidade destes locais não é possível o uso de uma única teoria” (p. 30).
A luz deste problema, Stokols (1992; 1995) propôs uma abordagem sócio-ecológica para promoção da saúde, no sentido de compreender a interação dos indivíduos e grupos com os recursos disponíveis nos ambientes que os cercam. Em contraste com as teorias mais “explicativas“, esta abordagem busca fornecer ferramentas voltadas para a intervenção em ambientes mais complexos. Portanto, em uma abordagem sócio-ecológica se reconhece que o comportamento individual é influenciado por múltiplos níveis, nomeadamente: intrapessoal, interpessoal, institucional, comunitário e político (STOKOLS, 1992; STOKOLS, 1995; LINNAN et al. 2002).
Por não apresentar relações causais bem definidas, o que dificulta a operacionalização deste tipo de abordagem, a sua aplicação pode ser mal interpretada e conduzir a insucessos. Todavia, Green e Kreuter (1991) apresentaram um modelo de planejamento para guiar intervenções para a promoção da saúde que, a partir de uma abordagem ecológica, permite a aplicação das teorias para mudança de comportamento.
O modelo PRECED-PROCEED (Figura 1), que não é considerado uma teoria comportamental e sim um modelo de planejamento, é composto de nove fases que partem do princípio que os CRS são complexos, multidimensionais e influenciados por uma variedade de fatores (GIELEN; McDONALD, 1996).
Inicialmente, busca-se conhecer os CRS que mais afetam os indicadores de saúde e a qualidade de vida da população em questão. Em seguida são identificados os fatores individuais e organizacionais que influenciam estes CRS. Esta etapa é executada ao longo de cinco fases de diagnose: 1) social; 2) epidemiológica; 3) comportamental e ambiental; 4) educacional e organizacional; e 5) administrativa e política.
De acordo com Gielen e McDonald (1996), nas fases 1 e 2 utiliza-se a epidemiologia descritiva, enquanto nas fases 3, 4 e 5 são utilizados os princípios das teorias para mudança de comportamento nos níveis individual, interpessoal e comunitário.
Como se percebe, uma grande diferença em relação às abordagens mais unidimensionais é a possibilidade de empregar os pressupostos e construtos das teorias e modelos mais adequados aos ambientes e à população em questão ao longo de cada etapa.

O emprego do modelo Transteórico na diagnose comportamental (Fase 3), por exemplo, possibilita a elaboração de intervenções especificas para cada grupo, de acordo com a distribuição da população ao longo de diferentes estágios de mudança de comportamento, ou EMC (PROCHASKA; REDDING; EVERS, 1996). Neste modelo, as estratégias são baseadas na premissa de que uma série de construtos como processos de mudança, equilíbrio decisório e auto-eficácia diferem em cada estágio. Prochaska et al. (1994) observaram estes construtos em 12 CRS e identificaram uma consistente relação com os EMC. O modelo Transteórico tem sido empregado com sucesso em intervenções de diversos CRS, com tabagismo, inatividade física, e baixo consumo de frutas e verduras (PROCHASKA; REDDING; EVERS, 1996).
A partir do levantamento desenvolvido durante as fase 1 a 4, do PRECED-PROCEED, estabelecem-se os subsídios necessários para o desenvolvimento das etapas subseqüentes de implementação e avaliação do programa para promoção de saúde. Este planejamento tem sido empregado para a elaboração de programas de intervenção voltados para diversos problemas de saúde (BERTERA, 1990; 1993; WINDSOR et al. 1993; RIMER, 1995; GREEN, 1994). Além disto, têm sido observadas melhoras significativas em indicadores de saúde, como: pressão arterial elevada (MORISKY et al. 1983); detecção de câncer de mama (RIMER, 1995), auto-exame do seio (WORDEN et al. 1990), cessação de fumo (WINDSOR et al. 1993) e promoção da saúde no trabalho (BERTERA, 1993), em intervenções que aplicaram este modelo.
*RODRIGO SIQUEIRA REIS
Mestre em Atividade Física e Saúde e Doutor em Ergonomia, com estágio na área de Psicologia na San Diego State University, é Professor Adjunto da PUCPR e da UFPR. Atua na área de Pesquisas em Mudança de Comportamento com ênfase nos Estágios de Mudança de Comportamento Relacionados à Atividade Física e Nutrição e no Controle do Estresse e ainda como consultor em instituições provadas e públicas.
REFERÊNCIAS
1 Fonte: DANNA, K; GRIFFIN, R. W. Health and well being in the workplace: a review and synthesis of the literature. Journal of Management, v. 25, n. 3, p. 360. 1999.
2 Fonte: Green,L.M; Kreuter, M.W. Health Promotion Planning: Na Educational and Environmental Approach. (2nd ed). Mountain View, Calif.:Mayfield, 1991.

